terça-feira, janeiro 23, 2007

Desconfio, que a fama e preponderância no pensamento ocidental dos filósofos alemães do sec.XIX, se deve tanto à densidade e complexidade dos seus sistemas, como ao exotismo e musicalidade dos seus nomes. Vejamos, Fichte, um nome simples é certo e por isso belo. Fich-te, duas sílabas enroladas, o violento f a que se segue o apaziguante e enrolado ich rematado por um t agressivo e martelado.
O complexo Nietzsche(que prefigura a persona), cabo das tormentas do escritor com pressa, pleno de beleza, enrolando-se na língua e batendo nos dentes, prolongando indefinidamente o e final, Nietzschee...
Contudo, a perfeição é atingida por esse prodígio cacofónico, wittgenstein, extenso, oscilante entre a frieza teutónica do witt e a pusilanimidade do stein final e arrastado, tendo de permeio o gen neutro.
Não esquecer o sóbrio e elegante Schopenhauer, irradiante de tristeza melancolia.
Como estes, muitos mais haverá, mas prezado e hipotético leitor, são cinco da manhã e ninguém me paga para escrever isto.
por aqui se vê que nietzsche mesmo quando errado tinha sempre razão
Não está totalmente afastado o perigo de eventual plágio a Borges, em algum dos posts anteriores. No entanto à luz da recém-adquirida confiança e por uma questão de coerência, renunciarei a certificar-me da minha originalidade (ou da sua ausência), consultando uma qualquer luminosa antologia.
Antes na duvida que no desespero.
É comum falar-se da falta de humor na obra de Proust, particularmente na Recherche. É comum, mas está errado. Adivinho em Proust o folgazão subtil, de humor nada pueril e meigo, que, pactuando sabe-se lá com que demónios, conseguiu infiltrar, na trindade, sangue, lágrimas e sémen, personagens tão genialmente cómicas como os infâmes Verdurin.

(parte I de muitas)
Dizem-me sisudo. E por que não, se raramente rio. Infelizmente dizem-no como se de algo mau se tratasse.

defeito de estilo

Retiro valiosa mensagem do último livro que li, antologia Kafkiana (com prólogo de Borges) que é verdadeiramente um belo livro de impoluto arranjo gráfico com cerca de oitenta páginas e a custar menos de doze euros. Uma pechincha digo eu. Da obra de Kafka, arrisco dizer que é uma óbvia elipse sinuosa. Da mensagem que retirei, lamento mas não me recordo, sei apenas que estava relacionada com a minha imoderada estupidez.
Era muito sisudo

domingo, janeiro 21, 2007

Por irrisória quantia, levo os três primeiros volumes do opus magnum de Proust, um pequeno romance de Roth, contos de Kafka, quatro clássicos, de Nabokov a Chesterton, passando por Henry Miller e Calvino, uma edição Penguin de Wilde e uma antologia Borgesiana. Sinto-me genuinamente feliz. Esta pulsão, até agora jamais concretizada, de adquirir o objecto literário, encontra finalmente a redenção sob a forma do esbanjamento desbragado de recursos financeiros em recantos obscuros de reputadas livrarias. Serei ratazana esfomeada chafurdando entre pobre arranjo gráfico de capa mole e gasta, a mais nojenta de todas, porém a mais nutrida.
Isto é folclore, sou eu, ingénuo, munido de ignorante erudição e viciosa imaginação.